Entre o Ser e o Sentir

Ludimila Ribeiro

Psicóloga especializada em Fenomenologia Existencial, atuando no tratamento de depressão, ansiedade, fobias, angústia, vazio existencial, perda de sentido da vida, dificuldades afetivas e orientação à maternidade. Contato: psico.ludimilaribeiro

O sofrimento como condição humana: enfrentar sozinho ou acompanhar-se?

Vivemos em uma sociedade que nos incentiva a buscar o prazer e evitar a dor a qualquer custo. Frases motivacionais, promessas de felicidade instantânea e a cultura da positividade nos fazem acreditar que sofrer é um erro, um sinal de fraqueza ou algo que pode ser resolvido rapidamente. Mas será que a vida pode ser reduzida a essa busca incessante de evitar o sofrimento ou se livrar dele?

 

O sofrimento não é um desvio do caminho, mas parte natural da condição humana. Ignorá-lo ou se desesperar quando ele surge, não o faz desaparecer; pelo contrário, pode torná-lo ainda mais intenso e profundo. Atravessá-lo, por outro lado, nos permite encontrar sentido, crescimento e transformação.

 

O sofrimento e a existência

 

Desde o nascimento, somos confrontados com a dor: fome, frio, medo, solidão. Com o tempo, aprendemos que a vida não é feita apenas de conquistas e alegrias, mas também de perdas, incertezas e desafios. A dor é um dos poucos elementos verdadeiramente universais da experiência humana.

 

Na perspectiva existencial, o sofrimento não é apenas um obstáculo a ser superado, mas um convite à reflexão sobre a própria existência. Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, afirma que, quando o sofrimento é inevitável, a maneira como o enfrentamos se torna essencial. Em sua obra ‘Em busca de sentido’, ele descreve como, mesmo em condições extremas, como em campos de concentração, aqueles que encontravam um propósito para suportar a dor tinham mais chances de preservar sua humanidade.

 

O sofrimento, quando compreendido, pode nos revelar o que realmente valorizamos, fortalecer nossa resiliência e nos transformar. 

 

O perigo da negação

 

Diante da dor, nossa primeira reação costuma ser evitá-la. Buscamos distrações, racionalizamos o que sentimos ou nos cobramos um otimismo forçado. No entanto, negar o sofrimento não o anula – apenas o desloca para outras formas de manifestação como ansiedade, apatia, irritabilidade ou até um profundo vazio existencial.

 

Fugir da dor, também nos coloca diante da fuga de nós mesmos. Fazer isso a qualquer custo pode nos impedir de desenvolver maturidade emocional, compreensão sobre a vida e um senso mais profundo de significado.

 

Isso não significa que devemos buscar o sofrimento ou aceitá-lo passivamente. Pelo contrário, reconhecer a dor nos permite lidar com ela de maneira mais consciente e construtiva.

 

A escolha: sozinho ou acompanhado?

 

Se o sofrimento faz parte da existência, a solidão diante dele não precisa ser uma regra. Podemos escolher enfrentar a dor isoladamente ou permitir que alguém nos acompanhe nesse processo.

 

Compartilhar o peso da dor pode torná-la mais compreensível e suportável. Como Frankl destaca, o sentido do sofrimento pode estar, muitas vezes, no outro – na conexão humana, no amparo e na partilha da experiência.

 

Reconhecer que o sofrimento é inevitável não significa resignar-se a ele, mas sim acolhê-lo como parte do processo. E, nessa caminhada, podemos seguir sozinhos ou abrir espaço para que alguém esteja ao nosso lado. Essa escolha, no fim, sempre será nossa.

 

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