Psicóloga especializada em Fenomenologia Existencial, atuando no tratamento de depressão, ansiedade, fobias, angústia, vazio existencial, perda de sentido da vida, dificuldades afetivas e orientação à maternidade. Contato: psico.ludimilaribeiro
Ao longo da vida, é comum revisitarmos nossas memórias de infância em busca de respostas. Muitas vezes, pode surgir um sentimento de falta: de mais presença, de mais escuta, de mais cuidado, de mais proteção, e entre outras faltas. E essa sensação de ausência pode se voltar à figura materna e não por acaso. Pois em muitos desses casos é a mãe, ou quem desempenhou esse papel, que representa o primeiro vínculo, a primeira experiência de acolhimento ou de abandono, de presença ou de falta.
Crescemos com imagens idealizadas do que seria o amor materno: incondicional, incansável, sempre disponível. Mas a realidade, muitas vezes, é outra. Porque, antes de ser mãe, toda mulher é também filha da sua própria história. Carrega marcas, dores, limites. E entrega o cuidado possível dentro do que compreende e do que suporta.
Isso não significa invalidar as dores de quem cresceu sentindo a falta desse cuidado. Pelo contrário: reconhecê-las é necessário. O que muda é o lugar a partir do qual olhamos para essa falta. Quando deixamos de esperar perfeição e passamos a compreender a complexidade da experiência humana, conseguimos sair da posição de cobrança e iniciar um processo de elaboração mais profundo.
A proposta de pensar numa “mãe suficientemente boa” é justamente essa: admitir que não existe perfeição no cuidado, mas sim tentativas. A mãe suficientemente boa falha, sim. E isso faz parte do desenvolvimento. É no espaço entre o cuidado e a frustração que a criança aprende, aos poucos, a lidar com o mundo real, onde nem sempre será atendida, onde haverá esperas, ausências, contrariedades. E é nesse mundo que todos nós habitamos.
Sob um olhar existencial, essa vivência não é um erro do percurso, mas uma parte inevitável da experiência de estar no mundo. Não passamos pela vida ilesos. Nos deparamos com feridas, com faltas, com dúvidas e é a partir dessas experiências que temos a possibilidade de construir sentido.
Sim, pode ter doído. Sim, talvez você quisesse ter sido visto de um jeito diferente. Mas talvez também seja possível olhar para essa história com mais humanidade, entendendo que o que não foi dado pode abrir espaço para novos caminhos: escolhas conscientes, relações mais cuidadosas, a chance de ser para si o que faltou.
Não se trata de idealizar a ausência nem de romantizar a dor. Trata-se de assumir o protagonismo sobre como queremos caminhar a partir do que nos marcou. Porque mesmo quando algo nos faltou, é possível seguir adiante com mais inteireza.
E, quem sabe, nesse processo, a gente também aprenda a ser suficientemente bom com a nossa própria história.
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