Entre o Ser e o Sentir

Ludimila Ribeiro

Psicóloga especializada em Fenomenologia Existencial, atuando no tratamento de depressão, ansiedade, fobias, angústia, vazio existencial, perda de sentido da vida, dificuldades afetivas e orientação à maternidade. Contato: psico.ludimilaribeiro

O amor e a tentação de capturar o outro

Há algo no amor que parece nos arrastar para o desejo de permanência. Muitas vezes quando amamos, queremos que o outro fique, que queira as mesmas coisas, que olhe na mesma direção, que nos escolha todos os dias com a mesma intensidade. Desejamos continuidade, constância, garantia e quanto mais desejamos isso, mais nos aproximamos da tentativa de transformar o outro em algo fixo, confiável, previsível, como se fosse possível congelar um sentimento ou um encontro.

 

E talvez esse seja o ponto mais delicado de qualquer relação: lidar com o fato de que o outro é livre. Livre para nos amar, mas também para deixar de nos amar. Livre para ficar, mas também para ir embora. Livre para ser tocado por nós, mas sem jamais se tornar posse. E essa liberdade não é uma ameaça ao amor, embora possa doer como se fosse.

 

Um amor que precisa ser garantido, que exige provas constantes, que cobra reafirmações diárias, talvez já tenha perdido o fio do encontro e se transformado em um jogo de segurança. Um amor assim vive da angústia de ser deixado e, por isso, tenta conter o outro, pode tentar seduzi-lo com promessas, prender pelo afeto. Mas isso, no fundo, é uma tentativa de escapar do risco. E amar, mesmo quando parece ser a coisa mais natural do mundo, é sempre um risco.

 

Existe, também, um desejo silencioso de ser o centro do mundo do outro. De ser visto com exclusividade, escolhido com convicção, lembrado mesmo quando ausente. Queremos que o outro nos deseje não só com o corpo, mas com o olhar, com a atenção, com o pensamento. Queremos ser especiais e talvez não haja nada de errado nisso. O problema surge quando esse desejo nos leva a exigir que o outro se molde à nossa necessidade, que deixe de ser quem é para se tornar quem gostaríamos que fosse. E quando isso acontece, já não é mais o outro que amamos, mas uma ideia. Uma imagem confortável, feita sob medida para sustentar nossa própria insegurança.

 

O amor real, esse que amadurece com o tempo e resiste aos silêncios, não se constrói sem tensão. Ele exige uma convivência honesta com a dúvida, com o vazio entre as palavras, com os dias em que a conexão falha e o outro parece distante. É uma travessia sem mapa, onde nenhum gesto tem garantia de retorno, nenhum afeto é blindado contra a mudança, e nenhuma presença é assegurada pelo passado. Amar assim exige mais do que coragem: exige um ato de fé, aquela que se lança no escuro, que escolhe seguir mesmo sem saber o que virá, que aposta no vínculo mesmo quando tudo é incerteza. Fé como esse movimento interno que sustenta o amor não por certezas, mas apesar da ausência delas. Porque amar é estar diante de alguém que pode ir embora e, ainda assim, escolhe ficar.

 

Talvez, no fim, amar seja mais sobre o que somos capazes de sustentar em nós do que sobre aquilo que esperamos do outro. Porque só quando deixamos o outro ser quem é, com seus desvios, mudanças e contradições, é que podemos descobrir, de fato, quem estamos nos tornando em sua presença.

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