À ordem

Ernani Spagnuolo

Advogado, Cientista Jurídico, Político e Social. Instagram: @uadvogado. As opiniões constantes neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião deste portal e de seus patrocinadores.

Quando a acusação vira espetáculo: o caso do professor em Patos de Minas e a voz apressada do poder

Patos de Minas foi tomada por uma onda de indignação quando surgiram as primeiras denúncias contra um professor da rede municipal, acusado de abusar sexualmente de crianças pequenas.

A gravidade do tema, por si só, já mobilizou a cidade.

Mas o que se seguiu revela muito sobre como lidamos com a Justiça em tempos de comoção social.

Primeiro veio a acusação.

Em seguida, antes mesmo que houvesse decisão judicial ou provas consolidadas, formou-se um tribunal paralelo: políticos locais, influenciadores e cidadãos comuns exigiam a prisão imediata, como se a presunção de inocência fosse um detalhe descartável.

O professor passou a carregar, na esfera pública, a pecha de culpado antes mesmo de se defender.

Sem poder saber porque, uma vez que o processo é sigiloso, foi decretada a prisão temporária do professor que foi localizado em Brasília e preso.

E quem deu a notícia em primeira mão em Minas Gerais?

Não foi a Polícia Civil.

Não foi o Judiciário.

Foi o governador Romeu Zema, pelas redes sociais, celebrando o feito e capitalizando o clamor popular.

Michel Foucault pregava que a punição, quando convertida em espetáculo, deixa de ser instrumento de justiça e passa a ser mecanismo de poder.

A prisão, nesse caso, não foi apenas um ato processual: virou manchete política.

Ao se antecipar às instituições, Zema fez mais do que informar.

Ele se apropriou do episódio, como tantos tentaram fazer, transformando-o em símbolo de eficiência estatal e, consequentemente, em capital político.

Mas a que custo?

A palavra pública não é neutra: o que um governante diz molda a percepção social.

Quando um líder comunica a prisão de um suspeito como se fosse uma vitória consumada, reforça o prejulgamento que já havia contaminado a cidade desde a acusação inicial.

Não se trata aqui de minimizar a gravidade das denúncias ou de relativizar o sofrimento das vítimas.

Mas sim de lembrar que Justiça não se faz com pressa nem com likes.

A comunicação ética de um líder deveria reforçar a confiança no processo e na seriedade das instituições, e não disputar protagonismo com elas.

O Estado de Direito se sustenta no equilíbrio entre dois valores: proteger as vítimas e garantir os direitos do acusado.

Quando a acusação vira espetáculo e a prisão é anunciada como troféu político, esse equilíbrio se rompe.

É natural que a sociedade clame por respostas rápidas em casos tão graves.

Mas é papel das autoridades conter o ímpeto da turba e reafirmar que Justiça é processo, não clamor.

Quando o Poder se apropria do ato de punir como espetáculo, não estamos mais falando apenas de Justiça, mas de vaidade política.

Isso te lembra alguém?

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