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Seu celular apitou trinta vezes com o mesmo “Feliz Natal”. Nenhuma daquelas pessoas parou para pensar em você. Elas clicaram em “encaminhar”.
O afeto virou spam.
Antigamente, enviar um cartão de Natal exigia alguma coisa de quem enviava. Não criatividade.
Não talento. Disponibilidade.
Era preciso escolher um cartão entre muitos, escrever à mão, errar a letra, pensar antes de mandar.
O gesto começava muito antes da mensagem.
E talvez fosse isso que importava.
Havia uma diferença clara entre quem enviava e quem recebia. Quem enviava se expunha.
Quem recebia era alcançado por algo que não pediu. Hoje, o Natal acontece rápido demais.
Bonito demais. Leve demais. As mensagens chegam prontas, impecáveis, animadas, muitas vezes criadas por inteligência artificial.
Elas dizem “Feliz Natal”, mas dizem isso a todos ao mesmo tempo.
E quando tudo é dito a todos, nada é dito a alguém.
Não é um problema técnico.
É existencial.
O afeto sempre exigiu tempo.
E o tempo se tornou o nosso maior constrangimento.
Apesar disso tudo, nos reunimos para cear e celebrar o nascimento do menino Jesus.
Não foi um evento. Teve churrasco com cheiro de carvão e dedicação. Teve arroz com lentilha, essa superstição antiga que insiste em atravessar os anos como quem pede licença ao futuro, e que meu pai transforma em uma iguaria única.
Foi uma mesa.
À mesa, sentaram-se lendas, embora ninguém as chamasse assim. Um advogado aposentado, desses que carregam na postura o peso do que já foi vivido. Minha mãe, uma das primeiras defensoras públicas de Minas Gerais, que aprendeu cedo que a justiça não mora nos discursos, mas no cansaço diário.
E um neurocirurgião que chegou de bicicleta, tirou os tênis antes de sentar e se colocou ali sem hierarquia alguma.
O mais importante, porém, era o que não se via. A escuta. A troca sem pressa.
A experiência circulando sem virar lição. Ninguém estava ali para ensinar.
Estávamos ali para estar. Lembramos também dos ausentes.
Alguns com palavras. Outros apenas com silêncio. E alguns com críticas, normal.
Enquanto mensagens de Natal se perdem em bits e bytes, algumas noites continuam resistindo.
Falamos sobre a vida, sobre como vivemos a vida e sobre o que realmente importa nela.
Não porque as nossas vidas são perfeitas.
Mas porque são reais.
Não porque são registradas.
Mas porque são sentidas.
Talvez o Natal ainda seja isso.
Uma pausa rara.
Uma mesa possível.
Um lembrete incômodo de que, apesar de tudo, o essencial ainda exige tempo.
E tempo, ao contrário das mensagens, não se encaminha.
Se oferece.
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