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Pouca coisa une tanto o Brasil quanto o desejo de trabalhar menos e viver melhor.
Quem não quer, né?
Quem já encarou rotina exaustiva, transporte precário, pressão constante e salário apertado sabe que a escala 6×1 cobra um preço silencioso: saúde mental, convivência familiar e qualidade de vida.
Defender relações de trabalho mais humanas não é pauta de esquerda ou direita. É pauta de civilização.
Por isso, serei direto: não sou contra o fim da 6×1. Meu problema com isso está no como.
A PEC anunciada por Hugo Motta promete reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais em um ano, extinguir a escala e preservar integralmente os salários. Politicamente, é uma proposta sedutora. Economicamente, merece debate menos emocional e mais responsável.
O economista Thomas Sowell costumava lembrar que não existem soluções perfeitas, existem escolhas e seus custos.
E aqui está a pergunta que pouca gente quer fazer: se o trabalhador trabalhar menos horas recebendo o mesmo, quem absorverá essa diferença?
Não é uma questão moral. É matemática.
A CNI estima que a redução de 44 para 40 horas, sem corte salarial, representa uma perda anual de aproximadamente R$ 77 bilhões no PIB 0,7% da riqueza que o país produz.
O FGV IBRE projeta impacto ainda maior: queda entre 3,9% e 6,2% no valor adicionado da economia, a depender dos ganhos de produtividade que, convenhamos, o Brasil não tem demonstrado nos últimos anos.
Grandes empresas talvez reorganizem turnos, invistam em tecnologia e absorvam parte do impacto.
Mas e o pequeno comércio? O restaurante do bairro? A farmácia, o mercadinho, a empresa familiar que já opera no limite da margem?
Quando o custo sobe sem ganho equivalente de produtividade, a conta não desaparece. Ela reaparece em preços maiores, menos contratações, terceirização ou informalidade justamente onde vivem os trabalhadores mais vulneráveis.
Vale lembrar: 38% da força de trabalho brasileira já está fora do regime CLT. Essa parcela não se beneficia da PEC e pode ser prejudicada pelos seus efeitos colaterais.
Existe, ainda, um detalhe incômodo que a análise honesta não pode ignorar: estamos em ano eleitoral.
Medidas populares sempre merecem escrutínio duplo econômico e político.
O eleitor enxerga imediatamente o benefício visível.
Os custos, quando existem, aparecem depois, devagar, espalhados e sem autor definido. Chegam como inflação, como desemprego silencioso, como vagas que simplesmente deixam de ser abertas.
E chegam, não por acaso, depois das urnas.
Isso significa que a proposta deve ser rejeitada? Não.
Significa que ela precisa ser aprovada com responsabilidade, com tramitação e uma transição real, com diálogo genuíno com quem gera empregos, e com clareza sobre quem pagará a conta e quando.
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