À ordem

Ernani Spagnuolo

Advogado, Cientista Jurídico, Político e Social. Instagram: @uadvogado. As opiniões constantes neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião deste portal e de seus patrocinadores.

A força e a ternura: o legado da Coronel Marisa

Este colunista ao lado da Coronel Marisa (foto: arquivo pessoal)

Tem gente que ocupa o comando só pelo tempo que o regulamento permite. E tem gente que transforma a própria passagem em referência e admiração.

 

Em breve, a Coronel Marisa Cunha Nunes Rios encerra uma etapa decisiva na Polícia Militar de Minas Gerais. Para Patos de Minas, contudo, sua presença à frente da 10ª Região deixará uma marca que vai muito além dos ritos institucionais, das condecorações ou do peso das insígnias na farda.

 

Nascida e criada em Patos de Minas, Coronel Marisa voltou à sua terra para construir história.

 

Ao assumir a 10ª RPM, em abril de 2023, tornou-se a primeira mulher a comandar uma Região da PM no interior do estado.

 

O dado, por si só, carrega dimensão expressiva: em uma corporação erguida sob tradição historicamente masculina, uma patense alcançou o topo da carreira e assumiu a responsabilidade direta pela segurança pública de 23 municípios.

 

Mas o aspecto central do seu comando talvez não possa ser medido por atos administrativos. Nesses anos, a Coronel conquistou o que nenhuma portaria é capaz de decretar: o respeito genuíno da tropa.

 

Quem conhece o ambiente militar sabe o abismo que separa a autoridade conferida pela patente daquela que se conquista no convívio.

 

A patente se impõe; o respeito se edifica na coerência diária entre o discurso e a conduta, sobretudo na capacidade de liderar sem converter a firmeza em distância, ou seja, trata-se a tropa com a firmeza que a Doutrina Militar exige, mas ao mesmo tempo com a delicadeza que uma mulher tem.

 

Tive a oportunidade de presenciar essa dinâmica durante as solenidades dos 28 anos da 10ª RPM, do bicentenário e meio da PMMG e da solenidade do curso de formação de Sargentos.

 

Em meio ao rigor formal da cerimônia, vi uma comandante que vibrava com a tropa, entregava medalhas com entusiasmo sincero e entoava, com energia, os gritos de guerra ao lado de sargentos recém-formados.

 

A cena deixava evidente a natureza do vínculo construído ali.

 

Coronel Marisa comandou sem precisar se isolar num pedestal.

 

Foi firme sem endurecer o olhar, propondo uma demonstração prática de como a presença feminina reconfigura os espaços de poder.

 

Durante muito tempo, vigorou a tese ingênua de que, para liderar em territórios masculinos, a mulher precisaria reproduzir trejeitos ou atitudes brutas. A trajetória da Coronel Marisa desmente a premissa: não é preciso abrir mão da sensibilidade para exercer o comando, nem alterar a voz para impor disciplina.

 

A Polícia Militar detém o monopólio da força legítima.

 

Comandar uma região militar significa chefiar homens e mulheres armados, preparados para intervir no limite dos conflitos urbanos.

 

É justamente onde o risco é alto, que o equilíbrio e a sensatez deixam de ser meras virtudes pessoais e viram requisitos técnicos de liderança. A síntese da passagem da Coronel Marisa reside aí: tendo a força ao seu dispor, preferiu operá-la com lucidez e ternura.

 

Ao se aproximar o momento de passar o cargo e iniciar um novo ciclo, ficam as honrarias praxe da instituição. Mas permanece, principalmente, o reconhecimento sincero daqueles que marcharam sob suas ordens e da comunidade que ela ajudou a resguardar.

 

Para Patos de Minas, fica um orgulho muito particular. A menina criada nos bairros da cidade percorreu toda a estrutura da PM, atingiu o posto máximo e regressou ao ponto de partida para cuidar do seu próprio povo. Difícil conceber um fecho de carreira mais coerente.

 

À Coronel Marisa, resta o nosso agradecimento sincero pelo serviço prestado à corporação, à nossa região e, acima de tudo, pelo exemplo sóbrio deixado para as próximas gerações. Afinal, cargos se devolvem; o legado permanece.

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