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Tem gente que ocupa o comando só pelo tempo que o regulamento permite. E tem gente que transforma a própria passagem em referência e admiração.
Em breve, a Coronel Marisa Cunha Nunes Rios encerra uma etapa decisiva na Polícia Militar de Minas Gerais. Para Patos de Minas, contudo, sua presença à frente da 10ª Região deixará uma marca que vai muito além dos ritos institucionais, das condecorações ou do peso das insígnias na farda.
Nascida e criada em Patos de Minas, Coronel Marisa voltou à sua terra para construir história.
Ao assumir a 10ª RPM, em abril de 2023, tornou-se a primeira mulher a comandar uma Região da PM no interior do estado.
O dado, por si só, carrega dimensão expressiva: em uma corporação erguida sob tradição historicamente masculina, uma patense alcançou o topo da carreira e assumiu a responsabilidade direta pela segurança pública de 23 municípios.
Mas o aspecto central do seu comando talvez não possa ser medido por atos administrativos. Nesses anos, a Coronel conquistou o que nenhuma portaria é capaz de decretar: o respeito genuíno da tropa.
Quem conhece o ambiente militar sabe o abismo que separa a autoridade conferida pela patente daquela que se conquista no convívio.
A patente se impõe; o respeito se edifica na coerência diária entre o discurso e a conduta, sobretudo na capacidade de liderar sem converter a firmeza em distância, ou seja, trata-se a tropa com a firmeza que a Doutrina Militar exige, mas ao mesmo tempo com a delicadeza que uma mulher tem.
Tive a oportunidade de presenciar essa dinâmica durante as solenidades dos 28 anos da 10ª RPM, do bicentenário e meio da PMMG e da solenidade do curso de formação de Sargentos.
Em meio ao rigor formal da cerimônia, vi uma comandante que vibrava com a tropa, entregava medalhas com entusiasmo sincero e entoava, com energia, os gritos de guerra ao lado de sargentos recém-formados.
A cena deixava evidente a natureza do vínculo construído ali.
Coronel Marisa comandou sem precisar se isolar num pedestal.
Foi firme sem endurecer o olhar, propondo uma demonstração prática de como a presença feminina reconfigura os espaços de poder.
Durante muito tempo, vigorou a tese ingênua de que, para liderar em territórios masculinos, a mulher precisaria reproduzir trejeitos ou atitudes brutas. A trajetória da Coronel Marisa desmente a premissa: não é preciso abrir mão da sensibilidade para exercer o comando, nem alterar a voz para impor disciplina.
A Polícia Militar detém o monopólio da força legítima.
Comandar uma região militar significa chefiar homens e mulheres armados, preparados para intervir no limite dos conflitos urbanos.
É justamente onde o risco é alto, que o equilíbrio e a sensatez deixam de ser meras virtudes pessoais e viram requisitos técnicos de liderança. A síntese da passagem da Coronel Marisa reside aí: tendo a força ao seu dispor, preferiu operá-la com lucidez e ternura.
Ao se aproximar o momento de passar o cargo e iniciar um novo ciclo, ficam as honrarias praxe da instituição. Mas permanece, principalmente, o reconhecimento sincero daqueles que marcharam sob suas ordens e da comunidade que ela ajudou a resguardar.
Para Patos de Minas, fica um orgulho muito particular. A menina criada nos bairros da cidade percorreu toda a estrutura da PM, atingiu o posto máximo e regressou ao ponto de partida para cuidar do seu próprio povo. Difícil conceber um fecho de carreira mais coerente.
À Coronel Marisa, resta o nosso agradecimento sincero pelo serviço prestado à corporação, à nossa região e, acima de tudo, pelo exemplo sóbrio deixado para as próximas gerações. Afinal, cargos se devolvem; o legado permanece.
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