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Ouvi, certa vez, a célebre máxima de que se queremos falar com o mundo, devemos antes falar com a nossa aldeia. E a nossa aldeia, às margens do Rio Paranaíba, não é diferente da maioria dos cantos deste Brasil.
Guarda as mesmas dores, as mesmas contradições e a mesma paixão inflamada pela política. A única particularidade local, talvez, seja a predileção histórica de boa parte dos nossos aldeões pelo espetáculo quando este traz o figurino e os ensaios da direita.
Mas, para além das cores partidárias, há uma figura trágica que se espalhou de ponta a ponta no país: o torcedor de político.
Coitado do brasileiro que caiu nessa armadilha. É uma sina dolorosa. Se o seu político de estimação comete um erro, o torcedor fiel se vê impedido de mudar de opinião; resta-lhe, então, a humilhante tarefa de mudar a própria definição do que é “errado”.
O relativismo moral é quase um esporte nacional. O que ontem era escândalo imperdoável no adversário, hoje vira “mal necessário” ou “estratégia” no aliado.
A grande tragédia do nosso tempo é que perdemos a capacidade básica de conviver em harmonia. Esquecemos um princípio elementar da democracia: adversários políticos não são inimigos mortais.
No dia seguinte à eleição, a poeira baixa e todos nós, da direita à esquerda, continuamos caminhando sob o mesmo sol, enfrentando a mesma inflação, os mesmos buracos nas ruas e os mesmos desafios do dia a dia. A única diferença prática costuma ser a mão que irá brandir o chicote do poder.
Na dinâmica eleitoral recente, ninguém sabe ao certo se há um planejamento minucioso ou se as coisas simplesmente vão se atropelando de forma aleatória.
Quando olhamos para os ídolos do cenário nacional, a exemplo da ascensão de nomes como Flávio Bolsonaro, fica a dúvida: a preferência majoritária ocorre por mérito próprio, por ser o herdeiro de um sobrenome ou puramente por ser a personificação do antipetismo?
A única certeza dolorosa é que o diálogo se tornou cada vez mais difícil em ambiente neutro. O centro ruiu. O debate respeitoso foi engolido pela polarização cega. De um lado, o extremismo de direita; do outro, o extremismo de esquerda.
Enquanto isso, vemos uma juventude que se alista cegamente nos “exércitos” ideológicos dos seus líderes, achando tudo perfeitamente natural diante de uma suposta “guerra intelectual”.
Mas é de bom tom refletir: para quem sempre pregou a bandeira do amor e da união, convocar exércitos e militâncias agressivas para nos “obrigar” a amar soa, no mínimo, intimidador.
O amor não se impõe pela força, e a política não deveria ser tratada como se fosse final de campeonato de futebol. Enquanto a nossa aldeia continuar dividida entre torcidas organizadas que idolatram mestres e ignoram erros, continuaremos sendo governados não por ideias, mas pela paixão cega de quem prefere defender um político a defender o próprio país.
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