Donaldo Amaro é jornalista e escritor, sendo autor de livros e vários artigos. Foi diretor do tabloide Green Card News e, atualmente, é diretor da revista eletrônica Sou Patos.
Está em cartaz, no cinema de Patos de Minas, o documentário ‘Zico, o Samurai de Quintino’. Lançado este ano, o filme retrata a vida e a carreira de Arthur Antunes Coimbra, o maior ídolo da história do Flamengo. Obviamente, irei assistir, ao lado de meus filhos, flamenguistas como eu. Um deles, Ricardo Amaro, teve um encontro com o Zico há alguns anos, no Rio de Janeiro. O próprio Ricardo traz o relato, que pode ser lido abaixo:
“Decidi nem ir trabalhar naquele dia. O motivo? Uma parceria entre Flamengo e Uber no Rio de Janeiro, dando a chance para que qualquer pessoa na cidade ficasse cara a cara com Arthur Antunes Coimbra. Para conhecer o Zico, maior ídolo da história do clube, bastava a pessoa chamar um Uber para que a levasse à sede social do Flamengo, na Gávea. Se a corrida fosse aceita, o sortudo iria ver, pessoalmente, o herói rubro-negro.
O problema é que quase toda a torcida do Flamengo, na cidade, devia estar fazendo exatamente a mesma coisa que eu, naquele momento do dia 23 de junho de 2017. Ou seja, em teoria, eu estava disputando com quase 4 milhões de apaixonados. Tentei por horas, sem parar, mas o aplicativo sempre dizia que não havia carros disponíveis para me levar à Gávea. Frustrado, resolvi deitar para diminuir a ansiedade. Lembro de ficar pensando que tudo aquilo não passava de um sonho. Como assim, faltar ao trabalho?
Levantei uma meia hora depois e resolvi tentar outra vez. ‘O motorista chegará a seu local em aproximadamente 5 minutos’, respondeu o aplicativo! Não tive tempo nem de lavar o rosto. Só vesti a primeira camisa 10 do Fla, que vi na frente, e desci correndo para a rua. Imagina se eu ainda perco esse Uber?
Quando entrei no carro, notei que a bateria do meu celular não iria durar muito. ‘E se não conseguir tirar foto com ele?’, pensei. Só me faltava aquilo. Ver o Zico e não conseguir registrar o momento. Cheguei à Gávea por volta das 16 horas e percebi que havia cerca de 50 pessoas na minha frente, esperando em fila. ‘Também faltaram à escola e ao trabalho pra ver o Zico?’, pensei.
O tempo foi passando e fui buscar, na memória, os mais diferentes lances de Zico. Gols de falta, títulos conquistados, ida para a Udinese, lesão no joelho, pênalti errado na Copa do Mundo, jogo de despedida, carreira no Japão… Mesmo tendo parado de jogar no Flamengo, quando eu tinha somente 10 anos, lembrava de muita coisa da carreira dele. Como aquele cara já me fez feliz!
Minha hora se aproximava e vi que minha bateria estava praticamente zerada. Havia somente duas pessoas na minha frente e eu já conseguia ver o Zico de onde estava. Comecei a tremer e minha barriga estava gelada. Ensaiei frases e possíveis diálogos que teria com ele. Pensei em contar sobre o Flamengo que ajudei a criar em Guiné-Bissau, na África, quando morei lá. Será que ele ficaria impressionado?
‘Próximo!’
Enfim, o meu momento. Fiz um sinal para alguém que meu celular estava quase pifando e implorei para que aquela pessoa tirasse nossa foto logo, antes que o pior acontecesse. Zico estava em minha frente. Dei um abraço forte nele e pensei em tudo aquilo que havia ensaiado para nossa conversa. Ele ficou me olhando, mas não saía nada da minha boca. Meus olhos estavam cheios de água, mas não conseguia conversar. Acho que ele entendeu o que estava se passando – provavelmente, o mesmo que todas aquelas outras pessoas que o encontraram durante o dia – e disse pra eu me acalmar. ‘Obrigado por tudo!’, foi o máximo que consegui dizer. Peguei meu telefone de volta e fui embora pra casa.
Dentro do carro, fiquei lembrando de uma cena antiga do filhinho do humorista Costinha, que conheceu o Zico e, ali mesmo na frente do craque, ficou repetindo para o pai: ‘Eu vi o Zico! Eu vi o Zico! Eu vi o Zico!’. Fiquei repetindo aquilo durante dias, até que eu mesmo acreditasse, de fato, que havia ficado cara a cara com o Rei rubro-negro”.
Cena do filho do Costinha, clique AQUI para assistir.
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