À ordem

Ernani Spagnuolo

Advogado, Cientista Jurídico, Político e Social. Instagram: @uadvogado. As opiniões constantes neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião deste portal e de seus patrocinadores.

Eu prefiro os animais

Eu prefiro os animais aos seres humanos. E não é por romantismo. Nem por desencanto puro. É por lógica, e talvez por honestidade.

 

Os animais sentem o mundo. Os seres humanos sentem e complicam o sentir.

 

Um cachorro olha nos seus olhos e vê presença. Um ser humano olha nos seus olhos e calcula intenção. Uma vaca perde o bezerro e sofre. Mas o sofrimento dela é direto, puro, sem narrativa.

 

Nós sofremos e depois sofremos de novo no pensamento.

 

Carregamos a dor como culpa, como trauma, como destino.

 

Um pássaro não envelhece com arrependimento. Um cavalo não planeja vingança. Um gato não se justifica. Eles vivem o que são.

 

Nós vivemos presos entre o que somos e o que achamos que deveríamos ser, enquanto um animal sente a dor na carne. O humano sente a dor e depois sente vergonha de sentir.

 

É por isso que prefiro os animais: eles não mentem sobre si mesmos.

 

Não se traem. Não se explicam. Não inventam teorias para justificar a própria crueldade. Não transformam a consciência em arma.

 

E, sobretudo: não destroem o mundo em nome do progresso. Será que eles são perfeitos? Não.

 

Mas são inteiros. não precisam de perdão, porque não escolheram ferir. Não precisam de terapia, porque não se odeiam por dentro. Não precisam de religião, porque não se sentiram expulsos de nenhum paraíso.

 

Eles pertencem. Nós, não.

 

E talvez seja exatamente isso: o ser humano é o único animal que se sente separado da vida e por isso mesmo, é capaz de destruí-la.

 

Eu prefiro os animais porque, ao contrário de nós, eles não perverteram a consciência.

 

Eles não fizeram da inteligência um disfarce. Não fizeram da fala uma mentira. Não fizeram da memória um veneno.

 

Eles sentem o mundo. Nós interpretamos e muitas vezes interpretamos errado.

 

No fundo, não se trata de desprezar a humanidade.

 

É sobre desejar algo que perdemos: a simplicidade de existir sem precisar justificar a própria existência.

 

Eu prefiro os animais porque eles ainda sabem ser o que nós desaprendemos.      

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