À ordem

Ernani Spagnuolo

Advogado, Cientista Jurídico, Político e Social. Instagram: @uadvogado. As opiniões constantes neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião deste portal e de seus patrocinadores.

Natal, ainda

Seu celular apitou trinta vezes com o mesmo “Feliz Natal”. Nenhuma daquelas pessoas parou para pensar em você. Elas clicaram em “encaminhar”.

 

O afeto virou spam.

 

Antigamente, enviar um cartão de Natal exigia alguma coisa de quem enviava. Não criatividade.

Não talento. Disponibilidade.

 

Era preciso escolher um cartão entre muitos, escrever à mão, errar a letra, pensar antes de mandar.

 

O gesto começava muito antes da mensagem.

 

E talvez fosse isso que importava.

 

Havia uma diferença clara entre quem enviava e quem recebia. Quem enviava se expunha.

Quem recebia era alcançado por algo que não pediu. Hoje, o Natal acontece rápido demais.

 

Bonito demais. Leve demais. As mensagens chegam prontas, impecáveis, animadas, muitas vezes criadas por inteligência artificial.

 

Elas dizem “Feliz Natal”, mas dizem isso a todos ao mesmo tempo.

E quando tudo é dito a todos, nada é dito a alguém.

Não é um problema técnico.

É existencial.

 

O afeto sempre exigiu tempo.

E o tempo se tornou o nosso maior constrangimento.

 

Apesar disso tudo, nos reunimos para cear e celebrar o nascimento do menino Jesus.

Não foi um evento. Teve churrasco com cheiro de carvão e dedicação. Teve arroz com lentilha, essa superstição antiga que insiste em atravessar os anos como quem pede licença ao futuro, e que meu pai transforma em uma iguaria única.

 

Foi uma mesa.

 

À mesa, sentaram-se lendas, embora ninguém as chamasse assim. Um advogado aposentado, desses que carregam na postura o peso do que já foi vivido. Minha mãe, uma das primeiras defensoras públicas de Minas Gerais, que aprendeu cedo que a justiça não mora nos discursos, mas no cansaço diário.

 

E um neurocirurgião que chegou de bicicleta, tirou os tênis antes de sentar e se colocou ali sem hierarquia alguma.

 

O mais importante, porém, era o que não se via. A escuta. A troca sem pressa.

A experiência circulando sem virar lição. Ninguém estava ali para ensinar.

 

Estávamos ali para estar. Lembramos também dos ausentes.

Alguns com palavras. Outros apenas com silêncio. E alguns com críticas, normal.

 

Enquanto mensagens de Natal se perdem em bits e bytes, algumas noites continuam resistindo.

Falamos sobre a vida, sobre como vivemos a vida e sobre o que realmente importa nela.

 

Não porque as nossas vidas são perfeitas.

Mas porque são reais.

Não porque são registradas.

Mas porque são sentidas.

 

Talvez o Natal ainda seja isso.

Uma pausa rara.

Uma mesa possível.

 

Um lembrete incômodo de que, apesar de tudo, o essencial ainda exige tempo.

 

E tempo, ao contrário das mensagens, não se encaminha.

 

Se oferece.

O escritório da Sou Patos está situado no seguinte endereço:

 

Rua Olegário Maciel, 63 – sala 108

Centro

Patos de Minas – MG

CEP: 38.700-122