À ordem

Ernani Spagnuolo

Advogado, Cientista Jurídico, Político e Social. Instagram: @uadvogado. As opiniões constantes neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião deste portal e de seus patrocinadores.

Nuvens e Feridas: um Plano A chamado Brasil

 

No translado de um aeroporto, somos convidados a um exercício raro: a desconexão.

 

O celular em modo avião, a vida suspensa entre nuvens e, de repente, nos damos conta de que o mundo lá embaixo continua girando sem pedir nossa permissão.

 

Esses pequenos hiatos de silêncio são como portais: basta pousar para percebermos que a realidade não esperou por nós.

 

Foi assim ao chegar em Porto. Ainda no táxi, o rádio anunciava, em tom urgente, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

No hotel, a televisão repetia a notícia como um mantra.

 

Preferi desligar.

 

Afinal, não era para isso que eu havia cruzado o Atlântico.

 

Minha intenção era outra: respirar a história, deixar-me tocar pelos costumes de um povo que, séculos atrás, escreveu o primeiro capítulo daquilo que chamamos hoje de Brasil.

 

Andar pelas ruas de Porto é reconhecer reflexos de Ouro Preto.

 

Os morros, as igrejas, a arquitetura barroca, tudo parece um espelho invertido, lembrando que o ouro que saiu de Minas um dia atravessou o oceano para erguer palácios por aqui.

 

A independência brasileira, celebrada no grito às margens do Ipiranga, talvez tenha sido menos libertação e mais encenação simbólica.

 

Porque a história, como sempre, é escrita não pelos fatos, mas pelas versões que escolhemos repetir.

 

Corta para 2025.

 

Olhando à distância, percebo como a narrativa continua a ser moldada, talhada de acordo com os interesses de quem segura a pena.

 

O Brasil, com sua multidão de analfabetos funcionais, é terreno fértil para governantes que transformam assistencialismo em moeda política.

 

Vendem soluções fáceis, mas entregam um país ainda mais desigual, onde até entre os necessitados se estabelece uma hierarquia invisível.

 

Não é de se espantar que tantos brasileiros escolham partir.

 

Tornam-se imigrantes em terras distantes, levando na mala a esperança de uma vida com poder de compra real, ainda que solitária e exaustiva.

 

Mas eu não.

 

Não tenho plano B.

 

Só um plano A: viver no Brasil.

 

Fazer o que estiver ao meu alcance para que essa terra tão rica e bela finalmente retribua ao seu povo aquilo que é de direito: respeito, dignidade, reconhecimento.

 

Porque há algo profundamente errado no Brasil, e isso não começou ontem.

 

É uma ferida antiga, aberta pouco a pouco ao longo dos séculos. Bolsonaro, com todos os seus defeitos, foi apenas uma rachadura fora do padrão, um ponto que desestabilizou o sistema.

 

Agora, o esforço parece ser o de corrigir a falha a qualquer preço, mesmo que o preço seja a incompetência escancarada.

 

O Brasil não é para amadores.

 

É para os que acreditam, mesmo diante do caos, que ainda é possível ser melhor e fazer diferente.

 

No sábado, dia 13, foi meu aniversário.

 

E, apesar de todas as contradições, sinto-me feliz.

 

Feliz por manter os olhos abertos e o coração resiliente.

 

Feliz por saber que minha aparente insignificância diante do todo se equilibra na vontade de mostrar às pessoas que a vida só perde o sentido quando escolhemos não enxergar o óbvio.

 

E só os idiotas não enxergam o óbvio.

 

Independente de ideologias. 

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