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Patos de Minas foi tomada por uma onda de indignação quando surgiram as primeiras denúncias contra um professor da rede municipal, acusado de abusar sexualmente de crianças pequenas.
A gravidade do tema, por si só, já mobilizou a cidade.
Mas o que se seguiu revela muito sobre como lidamos com a Justiça em tempos de comoção social.
Primeiro veio a acusação.
Em seguida, antes mesmo que houvesse decisão judicial ou provas consolidadas, formou-se um tribunal paralelo: políticos locais, influenciadores e cidadãos comuns exigiam a prisão imediata, como se a presunção de inocência fosse um detalhe descartável.
O professor passou a carregar, na esfera pública, a pecha de culpado antes mesmo de se defender.
Sem poder saber porque, uma vez que o processo é sigiloso, foi decretada a prisão temporária do professor que foi localizado em Brasília e preso.
E quem deu a notícia em primeira mão em Minas Gerais?
Não foi a Polícia Civil.
Não foi o Judiciário.
Foi o governador Romeu Zema, pelas redes sociais, celebrando o feito e capitalizando o clamor popular.
Michel Foucault pregava que a punição, quando convertida em espetáculo, deixa de ser instrumento de justiça e passa a ser mecanismo de poder.
A prisão, nesse caso, não foi apenas um ato processual: virou manchete política.
Ao se antecipar às instituições, Zema fez mais do que informar.
Ele se apropriou do episódio, como tantos tentaram fazer, transformando-o em símbolo de eficiência estatal e, consequentemente, em capital político.
Mas a que custo?
A palavra pública não é neutra: o que um governante diz molda a percepção social.
Quando um líder comunica a prisão de um suspeito como se fosse uma vitória consumada, reforça o prejulgamento que já havia contaminado a cidade desde a acusação inicial.
Não se trata aqui de minimizar a gravidade das denúncias ou de relativizar o sofrimento das vítimas.
Mas sim de lembrar que Justiça não se faz com pressa nem com likes.
A comunicação ética de um líder deveria reforçar a confiança no processo e na seriedade das instituições, e não disputar protagonismo com elas.
O Estado de Direito se sustenta no equilíbrio entre dois valores: proteger as vítimas e garantir os direitos do acusado.
Quando a acusação vira espetáculo e a prisão é anunciada como troféu político, esse equilíbrio se rompe.
É natural que a sociedade clame por respostas rápidas em casos tão graves.
Mas é papel das autoridades conter o ímpeto da turba e reafirmar que Justiça é processo, não clamor.
Quando o Poder se apropria do ato de punir como espetáculo, não estamos mais falando apenas de Justiça, mas de vaidade política.
Isso te lembra alguém?
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